O mapa e os técnicos

Crônica - O risco era real. O problema era decidir quem teria coragem de obedecer ao mapa.

Compartilhar

Reunião agendada. Vera prendeu o mapa de bacia hidrográfica de três cores na parede. Doutora em hidrografia e primeiro lugar no concurso para ingressar na secretaria ambiental. Sabia que argumentar sem mostrar mapa era falar ao vento — e o que ela ia propor não sobreviveria sem âncora visual.

Carlos chegou. Cumprimentou com a cabeça e ficou de pé perto da janela. Ascendeu internamente, anos de carreira, graduado em meio ambiente. Conhecia a sala. Conhecia o tipo de reunião. Sentar cedo demais daria a impressão desnecessária de reunião longa.

A planilha do orçamento foi projetada: custo de dezoito milhões. Orçamento sem folga. Eleição a quatro meses. Chuva forte na semana anterior. Nenhum morto — ainda —, o que no vocabulário público permite chamar desastre de aviso.

Vera foi direta. A contenção na bacia resolveria o problema na origem: bloquearia o escoamento antes que chegasse aos bairros baixos, reduziria o risco de inundação grave, resistiria melhor aos eventos extremos previstos para os próximos anos. Prazo: vinte e dois meses. Resultado visível antes da eleição: nenhum.

Era o dado real.

Carlos ouviu. Quando falou, não contestou. Sabia que ela estava certa. Contestou a duração da obra — a única coisa que podia contestar sem comprometer a posição que havia conquistado na secretaria.

Três bairros demandavam obras havia oito meses. Uma liderança comunitária suspendera visitas políticas. Um vereador da oposição prometera aparecer na sexta.

Disse que sabia o que acontecia quando o poder público sumia, presente apenas em obra invisível.

Vera olhou para o mapa. Carlos olhou para o orçamento. Os técnicos restantes olharam para o teto — esse grande mediador da administração pública.

— Paliativos não resolvem — disse Vera.

— Eu sei — disse Carlos.

Ficaram em silêncio. Carlos sabia que Vera estava certa. Mas vinte e dois meses de obra invisível tinham um custo que apareceria em nomeações políticas futuras.

— A comunidade não espera — disse Carlos.

— A água também não — respondeu Vera.

A composição que encontraram não era de nenhum dos dois. Era uma regra provisória construída no atrito: uma fatia pequena para três intervenções emergenciais com prazo público de noventa dias — escadaria, limpeza do canal, ponte de pedestres. O restante carimbado para a bacia de contenção, protegido contra remanejamento.

Não era o plano de Vera. Não era a ideia de Carlos. Era algo que aguentava — tecnicamente, territorialmente, politicamente.

Carlos abriu a boca para dizer que concordava.

A porta abriu.

O secretário entrou sem bater. Político bem votado na periferia. Portas fechadas não são para quem manda. Cumprimentou todos pelo nome — memória era o seu talento real — e ficou de pé na cabeceira da mesa. Dali podia ver o mapa e o orçamento ao mesmo tempo.

Ignorou ambos.

Disse que havia conversado com o prefeito. A situação nos bairros estava crítica. Entendia a importância do planejamento de longo prazo, naturalmente, antes de fazer o contrário.

Então anunciou o que havia sido decidido: a verba seria concentrada nas intervenções emergenciais dos três bairros.

Completou:

— Eu conheço aquela água subindo na porta das casas — disse ele. — Vocês mostram bacia de contenção para daqui a vinte e dois meses. E a próxima chuva?

Obras rápidas, visíveis, com placa. A bacia ficaria para o próximo ciclo orçamentário, esse universo mítico onde a administração pública arquiva o estrutural.

Serenidade total. Não parecia estar destruindo uma decisão. Parecia estar tornando-a administrável.

Não era burrice. Era pior: era uma lógica funcionando bem dentro de um mundo pobre de horizonte.

Vera tentou voltar ao mapa. Argumentou sobre o risco futuro, sobre a linha de risco vermelha do mapa.

Ele olhou o mapa pela primeira vez, rápido, como quem concede audiência a um marciano.

— Vamos atender tudo, ao seu tempo.

Vera calou.

Carlos entendeu e quase riu. Não riu. Há risos que destroem carreiras.

Olhou para Vera. Depois para o secretário. Depois para a planilha e o orçamento estourado.

A frase que veio era tecnicamente defensável.

Não estava traindo a técnica. Seria simples demais. Estava fazendo algo mais útil a si mesmo: usando a técnica para não ficar do lado errado da porta.

— Podemos anunciar como execução em etapas — disse Carlos. Ele é prático.

Vera ficou imóvel. Tinha o mapa, tinha o plano, tinha a solução tecnicamente correta. Faltava apenas a parte que nenhum mapa entrega: sustentar o real quando a sala muda de dono.

Isso ela não sabia fazer. Permaneceu calada.

Carlos continuou, agora com a voz mais segura do que gostaria:

— Intervenções emergenciais nos três bairros, com previsão de retomada da bacia no próximo ciclo.

O secretário assentiu antes que ele terminasse. Carlos sentiu o assentimento como se fosse uma porta abrindo.

Nenhum dos dois administrou o risco real. Carlos administrou a carreira. Vera administrou o espanto. A água continuava no mapa, indiferente aos dois.

Ninguém traiu nada. Carlos leu o ambiente com a precisão de quem aprendeu cedo onde mora o risco. Vera ficou imóvel com a resposta certa na mão – sem contestar decisão. Os dois foram fiéis ao que os formou — só que o que os formou não era a enchente.

A submissão virou ajuste técnico. Carlos abriu a ata.

Na ata, não escreveram adiamento da bacia. Escreveram “faseamento da estratégia de execução”. Melhor: “adequação territorial das prioridades”.  De quem?

O secretário não ditou nada. Não precisava. A sala já havia aprendido a frase que ele queria.

O mapa com a linha vermelha na mesa provava que a decisão tomada sabia o que ignorava.

 Leia também:

No ensaio Risco Demais, Proteção Demais, Autogoverno de Menos, examino como formações anteriores instalam modos de perceber e agir antes da decisão consciente — e como essas respostas podem estreitar o campo de ação possível.