Domingo que vem

Crônica - Eles queriam ficar mais juntos. O problema começou quando abriram as agendas. Espaço e atenção se tornaram condições que o amor precisa negociar.

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Domingo à noite tem uma qualidade específica. É o último pedaço da semana em que o futuro imediato ainda parece editável. Segunda não começou. O trabalho ainda não mordeu. As mensagens urgentes ainda não descobriram o caminho da manhã. Por algumas horas, a vida parece aceitar negociação.

Eles estavam no sofá, cada um com o celular na mão, mas sem a falta de educação de parecer ausente. Havia uma modalidade contemporânea de presença em que os corpos estão juntos e os polegares fazem pequenos trabalhos paralelos para manter o mundo de pé. Não era bonito, mas era praticável. Era o que havia.

— A gente precisa ficar mais junto — ela disse.

Ele concordou rápido. Não por medo. Por reconhecimento. Os dois sabiam. Nas últimas semanas, tinham se encontrado em sobras: meia hora antes de dormir, quinze minutos entre banho e e-mail, um almoço espremido entre duas obrigações, mensagens de voz ouvidas em velocidades que transformavam afeto em ata.

Concordar é sempre a parte fácil. A tragédia começou quando abriram as agendas.

Segunda, ele tinha reunião até mais tarde. Aquela recorrente que, meses antes, alguém havia prometido encerrar assim que o projeto estabilizasse. O projeto nunca estabilizou. Projetos têm essa delicadeza: quando não dão certo, exigem reunião; quando dão certo, exigem reunião para continuar dando certo.

Terça, ela tinha combinado de ver a mãe. Já havia adiado duas vezes, o que transformava a visita em dívida com juros. Quarta talvez desse. Ele verificou: tinha uma coisa às dezoito e trinta que eventualmente terminava às vinte, se ninguém resolvesse ser estratégico no final. Ela tinha academia às vinte, mas poderia pular. Já tinha pulado terça. E segunda. O corpo, aparentemente, era a primeira instituição autorizada a perder orçamento quando o amor precisava de espaço.

Quinta havia mercado, roupa para lavar, a resposta ao seguro do carro, que esperava havia dez dias com a paciência rancorosa das pendências administrativas. Sexta tinha aquele jantar com amigos. Tinham dito que seria bom ir, e era verdade. Na época, o jantar estava a um mês de distância, essa categoria generosa em que qualquer compromisso parece agradável porque ainda não tem trânsito, banho, roupa e cansaço. Um mês depois, tinha tudo isso.

Sábado de manhã, ela tinha dentista. À tarde, ele precisava resolver uma coisa do trabalho, não exatamente trabalhar, só resolver, que é como o trabalho entra no fim de semana de terno leve. Sábado à noite era a única noite em que os dois poderiam não fazer nada, e não fazer nada havia se tornado uma necessidade com status de tratamento médico.

— Domingo que vem? — ela perguntou.

Domingo que vem estava livre. Domingo que vem era um país sem dívida externa, uma cidade sem trânsito, uma agenda antes da ocupação. Domingo que vem permitia promessas porque ainda não havia recebido pedidos.

Ele criou um bloco: "ficar juntos". O aplicativo pediu horário. Ficaram em silêncio. O vínculo havia chegado ao ponto curioso de precisar informar duração para existir com alguma proteção institucional.

— Coloca à tarde — ela disse.

— Das três às sete?

— Parece consulta.

— Das quatro às oito?

— Parece visita.

Riram, mas o riso não retirou o incômodo. Ele digitou apenas "nós". Durante alguns segundos, aquela palavra pareceu suficiente. Depois o calendário mostrou o retângulo colorido entre outros retângulos coloridos, e a palavra virou compromisso administrável.

O problema não era marcar horário. Adultos marcam horário para quase tudo que desejam preservar. O problema era perceber que o vínculo já não disputava apenas vontade, mas espaço físico, energia restante, deslocamento, cansaço e orçamento de atenção. Amor, quando entra na semana adulta, não encontra um campo vazio. Encontra uma ocupação anterior.

Fecharam os aplicativos. Ficaram olhando para as telas apagadas, como se tivessem acabado de negociar com um síndico invisível. Ninguém estava errado. Esse era o problema. Eles queriam se encontrar. Não era performance. O querer era real. O calendário também era, e tinha uma vantagem desleal: estava escrito.

Ela apoiou o celular no sofá e ficou olhando para o teto por um segundo. Havia algo ligeiramente humilhante em agendar amor. Não o fato em si — outros casais faziam isso e chegavam ao domingo inteiros. Era a sensação de que a agenda havia ganhado um argumento que ela não sabia como refutar.

 No calendário, cabia tudo. Trabalho, mercado, consulta, mãe, seguro, jantar, academia, pendência, deslocamento. O encontro também cabia — desde que nenhum dos dois precisasse chegar inteiro.

Esta é uma das histórias que nascem do ensaio Amor sob Condições, onde espaço e atenção se tornaram condições que o amor precisa negociar — e o que acontece com o vínculo que só recebe o que sobra da semana.

O ensaio completo entrará dia 14/7 no blog.