A regra que ninguém escreveu

Crônica - Crianças criando regra em campo aberto, sem adulto que decida, negociando erro e exceção sem mediação — é uma forma de experiência formativa em operação.

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O pátio do prédio tinha três quadrados de cimento mais claros que os outros, uma tampa de bueiro no meio e uma rachadura fina atravessando tudo de lado a lado. Não era um lugar feito para brincadeira. Era um espaço deixado sem função, o que, para crianças de oito ou nove anos, costuma ser um lugar propício para fantasias e invenções.

Quatro delas estavam ali depois do almoço. O sol batia numa parte do chão, a sombra do prédio cobria a outra, formando uma linha que deu origem a brincadeira, e ninguém sabia exatamente quem tinha começado. Talvez tivesse sido a menina de camiseta verde, que pisou numa linha e disse que linha era lava. Talvez o menino menor, que respondeu que lava não podia ser linha porque linha era fina demais. A discussão durou quinze segundos, tempo suficiente para que a linha deixasse de ser linha e virasse fronteira.

— Então não pode pisar no claro — disse uma.

— No claro pode. Não pode pisar na rachadura.

— Mas a rachadura atravessa tudo.

— Por isso tem que pular.

O jogo nasceu assim, com a segurança jurídica de uma lei inventada no meio do pátio e assinada com a sola do tênis. Ninguém escreveu nada. A regra valia enquanto os corpos conseguissem obedecer e enquanto alguém ainda achasse graça.

O menor tentou primeiro. Pulou a rachadura, caiu com um pé em cima da tampa do bueiro e comemorou como se tivesse atravessado o Atlântico. A menina de camiseta verde disse que a tampa era neutra. O outro disse que não, a tampa era ponte. A quarta criança, que até então observava com a seriedade de um fiscal sem cargo, decidiu que ponte só valia uma vez.

— Uma vez por rodada.

— Que rodada?

Houve silêncio. A rodada ainda não existia. Então passou a existir.

Rodada era quando todos atravessavam até a parede e voltavam. Quem caísse no claro voltava para o começo. Quem pisasse na rachadura perdia a ponte. Quem discutisse demais tinha que ser o último. Essa regra surgiu depois de várias discussões, naturalmente.

Na terceira volta, o menor caiu de joelho. Fez aquela expressão de quem avalia se a dor merece plateia. Olhou para o joelho. Havia um risco branco, depois um ponto de sangue minúsculo, quase educado. Todos pararam. A menina perguntou:

— Doeu?

Ele disse que não, com a voz de quem estava decidindo se doía.

Ficaram olhando. Nenhum adulto apareceu. O mundo, por alguns segundos, cometeu a gentileza de não oferecer solução imediata.

— Então você pode começar dali — disse a criança que fiscalizava, apontando para a tampa do bueiro.

— Por quê?

— Porque caiu tentando pular.

— Mas se cair de propósito não vale.

— Óbvio.

Óbvio! A exclamação necessária das leis recém-criadas. Bastou isso. A queda virou exceção, a exceção virou regra, a regra passou a valer para quem caísse tentando de verdade. Ninguém definiu "tentando de verdade". Nem precisava. Eles saberiam quando alguém fingisse. Crianças têm uma polícia moral severa para pequenas fraudes.

O jogo continuou. A rachadura ficou maior do que era. A tampa do bueiro mudou de função três vezes. A sombra do prédio avançou e transformou uma parte do cimento claro em território discutível.

Foi preciso decidir se a sombra mudava a regra. Mudava. Mas só depois da próxima rodada, porque mudar no meio era injusto. Alguém protestou. Alguém lembrou que tinha sido assim com a ponte. A jurisprudência estava formada.

Ali naquele pátio, por quarenta minutos, estava se formando algo que não tem nome no boletim escolar: a experiência de criar regra em campo aberto, errar sem destruir, negociar sem árbitro externo, recomeçar sem que o recomeço precise de autorização. Não foi ensinado por ninguém. Aconteceu porque havia espaço — e porque ninguém apareceu para organizar o que o grupo já estava organizando.

Quando uma mulher apareceu na janela do terceiro andar e chamou uma das crianças para tomar banho, o jogo já era outra coisa. Não havia manual, mas havia memória. Não havia juiz, mas havia critério. Não havia líder fixo, mas algumas vozes entravam melhor em certos momentos. A criança fiscal, que havia criado a regra da ponte, agora explicava o jogo para uma que acabara de chegar. Explicava como quem sempre soube — que é como todas as leis funcionam, com o tempo suficiente.

A criança nova aceitou sem entender por inteiro. Entrou assim mesmo. Aprende-se muita coisa entrando antes de dominar o regulamento.

No fim da tarde, o pátio voltou a ser pátio. A rachadura voltou a ser rachadura. A tampa do bueiro perdeu a importância histórica que havia adquirido por quarenta minutos.

No fim, ninguém soube dizer quem tinha inventado a regra. Ela deu forma a brincadeira e estava funcionando com a adesão de todos - até mudarem tudo.

Leia também:

No ensaio Risco Demais, Proteção Demais, Autogoverno de Menos reflito sobre como esse tipo de experiência forma a capacidade de agir quando não há estrutura prévia — e o que acontece quando esse espaço raramente existe.