O amor que você aprendeu a merecer

Crônica 5 de 5 do ensaio "O amor sob condições". Uma manhã comum: café pronto, fruta cortada, nenhuma cobrança. Ainda assim, o corpo dela procura a conta.

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O café já estava feito quando ela saiu do quarto. Não era um café heroico, desses que anunciam sacrifício e cobram reconhecimento antes de esfriar. Era café comum, na garrafa térmica, com duas xícaras sobre a mesa e a colher pequena ao lado do açúcar que ele sabia que ela dizia estar reduzindo, embora reduzisse com flexibilidade.

A fruta estava cortada. Não em pedaços grandes, que exigem faca de sobremesa e disposição moral logo cedo, mas em pedaços que cabem em colher. O remédio dela estava separado perto do copo. A carona, ele havia mencionado na véspera, continuava disponível se ela precisasse.

Não era nada especial. Era uma manhã de terça-feira com café e fruta e um homem que havia acordado e feito as coisas que havia feito porque havia acordado e se lembrado de fazer.

— Nossa, não precisava.

— Eu sei. Eu quis.

"Eu quis" ficou na cozinha com um peso inesperado. Porque "eu quis" não trazia nota de rodapé. Não vinha com condição. Não sugeria que agora seria um bom momento para ela retribuir na mesma moeda ou em moeda equivalente ajustada à inflação afetiva. Não vinha acompanhado daquele pequeno brilho de cobrança que algumas gentilezas carregam antes mesmo de serem nomeadas.

Ela agradeceu. Sentou. Tomou o café, comeu a fruta cortada. A manhã poderia ter seguido dali, mas alguma coisa nela começou a trabalhar.

Primeiro recolheu a própria xícara antes de terminar. Depois recolheu a dele, embora ainda houvesse café no fundo.

— Deixa aí, eu lavo depois — ele disse.

— Não, rapidinho.

Lavou a xícara. Já que estava ali, lavou também a faca, a tábua, o prato pequeno. Passou um pano na pia. O pano estava limpo, mas passou de novo perto da torneira, onde havia uma gota de água com ambições muito discretas.

— Você quer que eu passe no mercado mais tarde?

— Não precisa.

— Tem certeza? Posso passar.

— Tenho. Não falta nada.

Ela assentiu. Dobrou o pano de prato com atenção excessiva para um pano de prato que não exigia atenção. Verificou se a janela estava fechada. Verificou também a bolsa, como se a bolsa pudesse conter a resposta correta para uma gentileza sem fatura.

O problema não era a fruta cortada. Era que fruta cortada sem conta apresentada era uma gramática que ela não dominava com desenvoltura. Cuidado com preço era compreensível. Cuidado sem cobrança produzia nela uma inquietação específica: a sensação de que havia algo sendo cobrado que ela ainda não havia identificado.

Há cuidados que chegam como presente. E há cuidados que, para quem aprendeu diferente, chegam como adiantamento de cobrança. A mesa não pede nada. A fruta não acusa. O café não apresenta fatura. Mas o corpo procura a conta mesmo assim, porque foi treinado em lugares onde o carinho costumava aparecer junto de uma obrigação futura, pequena o bastante para ser negada, grande o bastante para organizar a resposta.

Ela sabia que esse raciocínio não fazia sentido. Sabia que sabia. E sabia que saber não dissolvia o reflexo de pagar antes que a cobrança aparecesse. O reflexo era mais rápido que o raciocínio. Tinha sido treinado assim, em situações menores, onde cuidado sem conta costumava ter conta, só que entregue depois.

Ele encostou na bancada e olhou para ela sem pressa.

— Você está tentando devolver o café.

— Que exagero.

— Talvez.

O "talvez" dele foi cuidadoso. Não abriu processo. Não transformou terça de manhã em seminário afetivo. Apenas deixou a frase na cozinha, pequena o suficiente para não machucar, grande o suficiente para ser ouvida.

Ela ficou parada por um segundo. Depois mexeu na alça da bolsa.

— Posso pegar alguma coisa na padaria para você. Já vou passar por lá.

— Você vai passar por lá?

Ela hesitou.

— Posso passar.

Ele entendeu. Disse apenas: "Então traz pão. Se você quiser." Aquilo deveria aliviar. Não aliviou completamente. Agora havia uma tarefa, e tarefa era terreno conhecido.

Ela sorriu com mais firmeza, pegou a chave, conferiu o celular, beijou o rosto dele antes de sair. No elevador, abriu a lista de compras e escreveu "pão". Ficou olhando a palavra como quem finalmente encontrou uma forma manejável para uma coisa sem forma.

Na cozinha, ele ficou diante da mesa. A fruta tinha acabado. O café ainda estava quente.

 O cuidado não cobrou nada. Foi isso que ela não soube fazer com ele.

Leia: No ensaio O amor sob Condições, examino como a formação afetiva anterior entra no vínculo atual sem avisar — e por que cuidado sem cobrança pode ser, para alguns, mais difícil de receber do que cuidado com preço.